Revista Brasileira de Psicodrama volume 23, número 2, 2015

EDITORIAL

Tenho a honra de apresentar este número da Revista Brasileira de Psicodrama! Ilustra a mudança de paradigma no movimento psicodramático: os autores trazem a grande diversidade de aplicações expressando a vitalidade da prática socionômica no Brasil atual.

Há quase duas décadas, assumi a primeira de várias funções na Diretoria Executiva da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap). Após dois termos na função de Presidente, ganhei uma perspectiva privilegiada para acompanhar os principais diferenciais do psicodramatista brasileiro. Identifiquei intervenções grupais surpreendentes, geralmente muito bem avaliadas em congressos, projetos governamentais, comunitários, organizacional, de ensino, nas mais diversas áreas de atuação. O movimento psicodramático começava a utilizar denominações como sociopsicodrama, psicossociodrama, socioterapia para ressaltar a diversidade das práticas. Evidenciava-se que, entre os métodos propostos por Moreno, o sociodrama estava sendo ativamente recriado no Brasil.

Esse aspecto pujante da prática psicodramática não se manifestava com o mesmo entusiasmo nos artigos submetidos para publicação na Revista Brasileira de Psicodrama, em que havia uma predominância de artigos teóricos e relatos de casos clínicos (consultar a revisão sistemática publicada neste número). Muitas das intervenções socionômicas, nos mais diferentes contextos, nem sempre eram transformadas em manuscritos que atendessem aos critérios para publicação científica, o que dificultava o acesso à dimensão prática do Psicodrama contemporâneo pelos profissionais interessados no trabalho com grupos em cursos de graduação, pós-graduação ou de outras abordagens que viam no psicodrama uma perspectiva de aproximação e confluência. A Febrap deu um passo importante para reverter esse quadro investindo na versão on-line da Revista, disponível em algumas bases de dados reconhecidas. Esse passo, contudo, não foi e não seria suficiente se os autores não apresentassem os resultados de suas práticas sob a forma de artigos científicos.

Juntamente com a Marlene Marra, coeditora da Revista e importante colaboradora, organizamos uma oficina com o objetivo de construir novas referências para o desenvolvimento dos papéis de autor e de orientador, ocorrido durante o Encontro Nacional de Professores e Supervisores de Psicodrama, promovido pela Febrap, em 2015. Visávamos incentivar a simplicidade, a coerência e o consequente prazer para a produção científica. Durante essa atividade, os participantes vivenciaram os passos na construção de um artigo científico, construíram um texto com o propósito de descobrir o método de investigação e identificaram as diferentes seções de um artigo científico. Recomendo a todos os interessados consultar o Manual APA – 6ª edição para redigir seus manuscritos.

Nesse contexto, meus agradecimentos são imensos a todos os autores que colaboraram para a publicação deste número da Revista, divulgando suas práticas, seus processos de avaliação e reflexão sobre o Psicodrama e áreas relacionadas. A Revista Brasileira de Psicodrama pode tornar-se uma referência da diversidade de aplicações e uma confluência com os demais campos do saber.

O primeiro artigo apresenta o resultado de quatro anos de intervenção socioterapêutica com grupos de homens envolvidos em violência doméstica. Destaca a importância do acolhimento e do aquecimento para criar as condições necessárias para a viabilidade desses grupos no contexto da Justiça. O segundo traz uma revisão sistemática que identifica, entre outros achados, predominância de artigos teóricos e hegemonia de discussões clínicas, confirmando que a diversidade do Psicodrama não estava sendo devidamente expressa nos manuscritos publicados. Por outro lado, identifica a concentração de publicações em um periódico, o que demonstra a eficácia do investimento da Febrap na Revista. O terceiro traz uma contribuição importante da Psicossociologia Clínica, ilustrando o enriquecimento decorrente da fecundação entre diferentes teorias. Segue-se uma pesquisa em que o jogo dramático promove o desenvolvimento pessoal e social de mulheres de uma comunidade de baixa renda. A seção “Artigos Inéditos” finaliza com uma publicação escrita no idioma inglês que relata a aplicação de conceitos psicodramáticos à estrutura literária do conto de Natal de Charles Dickens.

Segue-se um Artigo de Reflexão que apresenta a construção de imagens, o uso de metáforas e a psicodança na prática psicodramática. A autora menciona a contribuição de Jaime Rojas-Bermúdez nos conceitos discutidos. Destaca a atualidade dessa teoria ao discutir a relevância da construção de imagens por ser uma representação neural, promovendo a neuroplasticidade.

A seção “Comunicações Breves” inicia com o relato de uma avaliação psicológica de uma criança e sua família após denúncia de abuso sexual envolvendo a criança e o padrasto. Seguem-se considerações sobre a repercussão da morte em famílias doadoras de órgãos, ressaltando a importância do acolhimento para que essa escolha contribua para a construção de novas perspectivas sobre esse processo. Segue-se a apresentação dos resultados promissores da combinação do psicodrama e Justiça restaurativa em intervenção com grupos de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa. Visando diminuir a reincidência do ato infracional, as autoras ilustram o potencial da metodologia sociopsicodramática para a identificação de padrões relacionais e a preparação para a reinserção social. O Holocausto marcou profundamente a segunda e a terceira gerações de sobreviventes e de agressores. Nessa Comunicação Breve, os autores, de origem judaica e alemã, discutem a transmissão transgeracional do trauma e identificam as diferenças e as semelhanças entre os descendentes das vítimas e dos agressores, exemplificando o potencial do psicodrama, do sociodrama e dos rituais para a recuperação dessa população.

Finaliza com a resenha do livro “Atitude Empreendedora: descubra com Alice o seu País das Maravilhas”. Ressalta o convite dessa obra para que o leitor interaja com os personagens da história para facilitar uma reflexão pessoal que poderá levar ao desenvolvimento ou à transformação de sua atitude diante do papel profissional. Ilustra a expansão dos conceitos morenianos em novas leituras e aplicações.

Convido à leitura dessas contribuições! Comentários, recomendações, críticas, todas as ressonâncias provocadas por esses artigos são bem-vindos para publicação na seção “Cartas ao Editor”.

Agradeço imensamente todos os colaboradores: autores, pareceristas, revisores e as coeditoras mais próximas Marlene Marra e Marcia Almeida Batista. O agradecimento estende-se à Diretoria Executiva e ao Fórum Gestor da Febrap pelo contínuo apoio para essa publicação.

Muito obrigada!

Heloisa Fleury
Editora

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